O consumo excessivo de bebidas alcoólicas, e suas graves consequências, é tema recorrente que tem fomentado polêmicas mundo afora. Há muito tem me chamado a atenção o rigor da legislação federal dos EUA que trata da matéria e que proibe, dentre outras coisas: o consumo de qualquer bebida alcoólica por menores de 21 anos; o consumo em logradouros públicos; e o funcionamento de bares após 2h da madrugada.
É notável como a sociedade norte-americana trata com naturalidade essas restrições. Nos bares e pubs, normalmente após 21h, é comum os jovens serem obrigados a apresentar documento de identidade na entrada para comprovar idade superior a 21 anos, mesmo que tenha mais de 18 e que não vá consumir bebida alcoólica. As baladas costumam começar cedo, atingindo o auge entre 23h e 1h, sendo absolutamente normal policiais fardados circularem tranquilamente inspecionando o ambiente. Quando chega 1h30, as luzes acendem, a música para e, pontualmente às 2h, o estabelecimento é fechado e as pessoas costumam ir para suas casas. Perambular pela rua? Não convém porque certamente a polícia vai abordar.
Maior rigor ainda é aplicado aos raros que teimam em beber e dirigir, considerada uma das mais graves infrações do trânsito. Se houver um acidente e for detectado que o motorista ingeriu álcool além dos limites estabelecidos em leis estaduais, as penalidades costumam ser severas.
Conversei com cidadãos de lá e para eles tudo isso é natural e correto. Chegando aqui, troquei idéias com um amigo norte-americano que reside em Aracaju e, consequentemente, conhece a liberalidade da legislação brasileira. Ele foi taxativo: atualmente o rigor da legislação americana já é dispensável porque a sociedade já incorporou e apóia incondicionalmente as limitações. Segundo ele, se um grupo de jovens sai para a noite e um deles insiste em dirigir após beber, os demais tentam impedir e, se não conseguirem, jamais aceitam a carona.
Opinando sobre o Brasil, ele acredita que o rigor adotado nos EUA caberia muito bem aqui, onde festas começam muito tarde da noite e varam a madrugada (idem quanto aos bares), com o consumo exagerado de bebidas, sobretudo por jovens com menos de 21 anos, contribuindo para elevar a níveis assustadores as estatísticas de acidentes graves, muitos deles fatais.
A conclusão a que chego é que temos muito a aprender com outros países do mundo (vários deles, além dos EUA, também possuem legislações muito restritivas quanto ao consumo de álcool), inclusive nesse particular, onde a excessiva tolerância e permissividade têm imposto um custo muito elevado para a sociedade.
Espaço para divulgar minhas ideias, alimentar polêmicas e interagir com quem desejar. Temas prediletos: negócios, tecnologia, economia e política.
domingo, 21 de agosto de 2011
sábado, 30 de julho de 2011
Software livre: uma opção de negócio
Numa fria manhã da primavera de 1996, no anfiteatro do campus de Santa Cruz da Universidade da Califórnia, assisti atento à disputada palestra de Scott Mc-Nealy, à época CEO da Sun Microsystems, empresa que criou a tecnologia Java, quando ele insistia em afirmar: "o computador é a rede". Saí dali convicto de que era a hora de aprumar o leme da Infox em direção a Java, mas também preocupado com o futuro da SCO, empresa parceira que organizava aquele fórum e responsável pela distribuição SCO Unix.
Poucos anos depois, o crescimento do Linux enfraqueceu a SCO e passamos a adotar aquele sistema operacional de código aberto em nossos projetos, adaptando-nos à perda da confortável receita originária das vendas das licenças do SCO Unix, parcialmente recomposta pela prestação de serviços de suporte, treinamento e mentoring para Linux e Java.
O mesmo se deu com o banco de dados que adotamos durante anos, aos poucos substituído por MySQL e PostgreSQL, ambos free softwares. Fizemos, portanto, opção deliberada por usar e convencer nossos clientes - públicos e privados -, a adotarem software livre, proporcionando economia e adicionando ganhos de qualidade, desempenho e confiabilidade. Tal economia tem permitido que o cliente invista mais e melhor em desenvolvimento de sistemas e serviços de suporte, ou seja, no núcleo do nosso negócio.
Foi por essas razões que compreendemos, assimilamos e nos incorporamos facilmente às políticas públicas dos governos Federal e estaduais, que estabeleceram a preferência pelo software livre nas contratações de produtos e serviços de Tecnologia da Informação (TI). Ao longo dos últimos 15 anos, temos colecionado projetos desafiadores e vitoriosos, todos eles adotando software livre, quebrando mitos e preconceitos e proporcionando enormes economias para os clientes.
Dentre tantas, merece destaque a experiência de construção do Creta - Sistema de Processo Digital para Juizados Especiais Federais, contratado pelo TRF 5a Região, baseado em Recife, premiado nacionalmente e reconhecido como a mais efetiva solução de processo eletrônico para o judiciário brasileiro. A base de dados do Creta na Seção Judiciária do Recife armazena hoje o conteúdo de 325 mil processos, ocupando 1,1 Tb e suportando até 800 sessões simultâneas de usuários acessando a aplicação. Qual o custo para o cliente na aquisição dos produtos envolvidos (Linux, Java, JBoss e PostgreSQL)? A resposta é zero. Se, contudo, a opção fosse por softwares proprietários, ultrapassaria a cifra de R$ 10 milhões!
A partir da experiência do Creta, com o apoio do TRF 5a Região, ousamos construir um sistema mais abrangente, capaz de atender toda a demanda do judiciário, tornando eletrônicos - ou virtuais, ou digitais -, todos os processos, independentemente de classe e de instância. E assim nasceu, em menos de dois anos, o PJe - Processo Judicial Eletrônico, padronizado nacionalmente pelo CNJ e em adoção por tribunais federais e estaduais.
Alguns dirão que zerar o custo de aquisição não significa eliminar o custo total de propriedade (TCO), e é verdade. Em torno do software livre existe um crescente número de empresas provedoras de serviços - a exemplo da RedHat -, que vendem treinamentos, mentoring e subscrições anuais que garantem suporte técnico nos mais diferentes níveis. Dificilmente, contudo, o TCO de um software livre será superior ao do equivalente software proprietário.
O relato dessa experiência concreta não tem a intenção de alimentar o ultrapassado debate ideológico e maniqueísta que se estabeleceu em torno da adoção do software livre, mas chamar a atenção para uma oportunidade que se abre onde muitos ainda vêem uma ameaça e, adicionalmente, alertar para o inexorável crescimento da adoção do software livre como opção consciente de empresas e usuários de TI, sobretudo diante dos muitas vezes abusivos preços das licenças dos softwares proprietários.
(artigo publicado na edição 36, em julho de 2011, da revista Tecnologia da Informação: http://www.mflip.com.br/pub/assespro/?numero=36)
sábado, 2 de julho de 2011
Copa e Olimpíada: quem vai pagar a conta?
Exercitando minimamente a autocrítica, havemos de reconhecer que em nosso querido Brasil continuam fortemente sedimentados "princípios" que norteiam alguns agentes públicos e privados e que produzem inestancáveis sangrias dos cofres públicos.
Eis a razão de tantos, como eu, injustamente taxados de pessimistas, preocuparem-se com a realização dos dois maiores eventos esportivos do planeta por essas bandas: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Ao primeiro, adicione-se um fato recente: quem o capitaneia, a famosa FIFA, teve seus dirigentes envolvidos em esquemas de deslavada corrupção, e sobre a CBF, dispensam-se comentários.
Como somos um povo desmemoriado, a farra dos recentes Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro (PAN-2007), cujo orçamento saltou de R$ 400 milhões para R$ 3,4 bilhões, com fartos indícios de superfaturamento, deveriam servir como um grande sinal de alerta. Consideremos, pois, que o orçamento oficial das Olimpíadas de 2016 é de R$ 38,7 bi e da Copa de 2014 R$ 40 bi (a anterior, na África do Sul, custou R$ 15 bi). Se a "margem de erro" for a mesma do PAN-2007, estamos literalmente ... deixe prá lá.
É bem verdade que esses eventos, em alguma medida, vão antecipar investimentos em infraestrutura, sobretudo urbana, que podem se traduzir em ganhos permanentes para os cidadãos, além de poder alavancar a indústria do turismo. Ocorre que, a partir da experiência do PAN-2007, estudos apontaram que esses investimentos pouco favoreceram justamente quem mais os demandam: as classes menos favorecidas (vide link abaixo para o artigo "O Jogo da Desigualdade").
E quanto aos propagados argumentos dos defensores desses megaeventos? Os estudos provam que, em alguns casos, e o mais emblemático é Barcelona, pode-se obter um grande saldo positivo mas, infelizmente, é a exceção. No final das contas, sobretudo em se tratando de países em desenvolvimento, a tendência é sobrar um gigantesco passivo a ser pago, como de costume, pela sociedade, como ocorreu com a Grécia. Esperemos que, ao menos no caso da Copa de 2014, antes de pagar essa conta o povo brasileiro curta o efêmero momento de alegria com a conquista do campeonato.
Como a "sorte está lançada" (ou seria o azar?), não nos resta sabotar ou torcer para que não dêem certo. Ao contrário, devemos exigir dos agentes envolvidos com a organização das duas competições o máximo de transparência, seriedade e espírito público, embora tendo que nos esforçar para conter o natural ceticismo.
Sobre o tema, recomendo essas leituras ilustrativas:
- O Jogo da Desigualdade - http://migre.me/5a2II
- Rio 2016, e agora? Oportunidades e Desafios - http://migre.me/59QXb
- Prioridades do Futebol - http://migre.me/59QXT
Atualização em 11/09/2011:
Nesta data, a Folha de São Paulo traz matéria intitulada "Custo da Copa corre o risco de explodir", da qual destaco os seguintes trechos:
O Portal da Transparência do governo, montado pela Controladoria-Geral da União, diz que a Copa custará R$ 23,4 bilhões. A Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), que tem acordo de cooperação técnica com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e o Ministério do Esporte, trabalha com outros números. Estima em R$ 112 bilhões o custo total do Mundial e em R$ 84,9 bilhões, se considerado o recorte feito pelo Portal da Transparência, com o cálculo incluindo só aeroportos, portos, segurança, arenas e mobilidade urbana.
De acordo com o procurador-chefe do Ministério Público Federal do Amazonas, Athayde Ribeiro Costa, atual coordenador do Grupo de Trabalho Copa do Mundo 2014:
"Há grande risco em financiar obras com projetos falhos e sem detalhamentos. Isso porque o valor da obra será feito em estimativas aleatórias e futuramente serão demandados aditivos acima dos limites legais", diz Costa. Segundo ele, o temor de que a desorganização conduza a uma situação de descontrole está se confirmando. Com esse quadro, "aumentam riscos de sobrepreço, de paralisação de obras, de obras inacabadas e de corrupção".
No Amazonas, o MPF determinou à Caixa e ao BNDES a suspensão do repasses de recursos por falta de projetos para a construção do monotrilho e da arena Amazônia, em Manaus.
Os dois projetos devem consumir quase R$ 900 milhões e, segundo o MPF, não têm projetos executivos, o que eleva o risco de sobrepreço. Ainda de acordo com o MPF, são obras com custos atuais que não podem ser considerados definitivos.
Eis a razão de tantos, como eu, injustamente taxados de pessimistas, preocuparem-se com a realização dos dois maiores eventos esportivos do planeta por essas bandas: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Ao primeiro, adicione-se um fato recente: quem o capitaneia, a famosa FIFA, teve seus dirigentes envolvidos em esquemas de deslavada corrupção, e sobre a CBF, dispensam-se comentários.
Como somos um povo desmemoriado, a farra dos recentes Jogos Panamericanos do Rio de Janeiro (PAN-2007), cujo orçamento saltou de R$ 400 milhões para R$ 3,4 bilhões, com fartos indícios de superfaturamento, deveriam servir como um grande sinal de alerta. Consideremos, pois, que o orçamento oficial das Olimpíadas de 2016 é de R$ 38,7 bi e da Copa de 2014 R$ 40 bi (a anterior, na África do Sul, custou R$ 15 bi). Se a "margem de erro" for a mesma do PAN-2007, estamos literalmente ... deixe prá lá.
É bem verdade que esses eventos, em alguma medida, vão antecipar investimentos em infraestrutura, sobretudo urbana, que podem se traduzir em ganhos permanentes para os cidadãos, além de poder alavancar a indústria do turismo. Ocorre que, a partir da experiência do PAN-2007, estudos apontaram que esses investimentos pouco favoreceram justamente quem mais os demandam: as classes menos favorecidas (vide link abaixo para o artigo "O Jogo da Desigualdade").
E quanto aos propagados argumentos dos defensores desses megaeventos? Os estudos provam que, em alguns casos, e o mais emblemático é Barcelona, pode-se obter um grande saldo positivo mas, infelizmente, é a exceção. No final das contas, sobretudo em se tratando de países em desenvolvimento, a tendência é sobrar um gigantesco passivo a ser pago, como de costume, pela sociedade, como ocorreu com a Grécia. Esperemos que, ao menos no caso da Copa de 2014, antes de pagar essa conta o povo brasileiro curta o efêmero momento de alegria com a conquista do campeonato.
Como a "sorte está lançada" (ou seria o azar?), não nos resta sabotar ou torcer para que não dêem certo. Ao contrário, devemos exigir dos agentes envolvidos com a organização das duas competições o máximo de transparência, seriedade e espírito público, embora tendo que nos esforçar para conter o natural ceticismo.
Sobre o tema, recomendo essas leituras ilustrativas:
- O Jogo da Desigualdade - http://migre.me/5a2II
- Rio 2016, e agora? Oportunidades e Desafios - http://migre.me/59QXb
- Prioridades do Futebol - http://migre.me/59QXT
Atualização em 11/09/2011:
Nesta data, a Folha de São Paulo traz matéria intitulada "Custo da Copa corre o risco de explodir", da qual destaco os seguintes trechos:
O Portal da Transparência do governo, montado pela Controladoria-Geral da União, diz que a Copa custará R$ 23,4 bilhões. A Abdib (Associação Brasileira da Infraestrutura e Indústrias de Base), que tem acordo de cooperação técnica com a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) e o Ministério do Esporte, trabalha com outros números. Estima em R$ 112 bilhões o custo total do Mundial e em R$ 84,9 bilhões, se considerado o recorte feito pelo Portal da Transparência, com o cálculo incluindo só aeroportos, portos, segurança, arenas e mobilidade urbana.
De acordo com o procurador-chefe do Ministério Público Federal do Amazonas, Athayde Ribeiro Costa, atual coordenador do Grupo de Trabalho Copa do Mundo 2014:
"Há grande risco em financiar obras com projetos falhos e sem detalhamentos. Isso porque o valor da obra será feito em estimativas aleatórias e futuramente serão demandados aditivos acima dos limites legais", diz Costa. Segundo ele, o temor de que a desorganização conduza a uma situação de descontrole está se confirmando. Com esse quadro, "aumentam riscos de sobrepreço, de paralisação de obras, de obras inacabadas e de corrupção".
No Amazonas, o MPF determinou à Caixa e ao BNDES a suspensão do repasses de recursos por falta de projetos para a construção do monotrilho e da arena Amazônia, em Manaus.
Os dois projetos devem consumir quase R$ 900 milhões e, segundo o MPF, não têm projetos executivos, o que eleva o risco de sobrepreço. Ainda de acordo com o MPF, são obras com custos atuais que não podem ser considerados definitivos.
domingo, 29 de maio de 2011
A solução do "enigma" matemático da conta de R$ 30,00
Um dos "enigmas" matemáticos mais difundidos e comentados, aparentemente sem solução, na verdade não passa de uma "pegadinha" ou uma indução ao erro por partir de uma premissa falsa.
Trata-se da história de 3 amigos pagando uma conta de bar: a conta totalizou R$ 25,00, cada um pagou R$ 10,00 e combinaram dar ao garçon gorjeta de R$ 2,00. Feito isso, o garçon embolsou sua parte e devolveu R$ 1,00 a cada um dos clientes.
Nesse ponto surge a falsa questão: se cada um dos clientes recebeu R$ 1,00 de volta, então os 3 pagaram R$ 27,00 (3 x 9,00) que, somados aos R$ 2,00 que ficaram com o garçon, totalizaria R$ 29,00. Onde estaria, então, o R$ 1,00 para completar os R$ 30,00? Sumiu?
Vamos ao raciocínio correto, de duas formas:
a) Os R$ 30,00 foram assim divididos: R$ 25,00 para a conta, R$ 2,00 para o garçon e R$ 3,00 para os clientes (o troco), sem sobrar nem faltar nenhum R$ 1,00.
b) Os R$ 27,00 foram assim divididos: R$ 25,00 para a conta e R$ 2,00 para o garçon, ou seja, e obviamente, a gorjeta do garçon é parte dos R$ 27,00, não fazendo sentido ser somada ao total.
Como pode ser visto, em ambas as análises as contas fecham. A tentativa de somar os R$ 2,00 aos R$ 27,00 e querer chegar aos R$ 30,00 é a "pegadinha".
Trata-se da história de 3 amigos pagando uma conta de bar: a conta totalizou R$ 25,00, cada um pagou R$ 10,00 e combinaram dar ao garçon gorjeta de R$ 2,00. Feito isso, o garçon embolsou sua parte e devolveu R$ 1,00 a cada um dos clientes.
Nesse ponto surge a falsa questão: se cada um dos clientes recebeu R$ 1,00 de volta, então os 3 pagaram R$ 27,00 (3 x 9,00) que, somados aos R$ 2,00 que ficaram com o garçon, totalizaria R$ 29,00. Onde estaria, então, o R$ 1,00 para completar os R$ 30,00? Sumiu?
Vamos ao raciocínio correto, de duas formas:
a) Os R$ 30,00 foram assim divididos: R$ 25,00 para a conta, R$ 2,00 para o garçon e R$ 3,00 para os clientes (o troco), sem sobrar nem faltar nenhum R$ 1,00.
b) Os R$ 27,00 foram assim divididos: R$ 25,00 para a conta e R$ 2,00 para o garçon, ou seja, e obviamente, a gorjeta do garçon é parte dos R$ 27,00, não fazendo sentido ser somada ao total.
Como pode ser visto, em ambas as análises as contas fecham. A tentativa de somar os R$ 2,00 aos R$ 27,00 e querer chegar aos R$ 30,00 é a "pegadinha".
terça-feira, 24 de maio de 2011
Madrid, siesta e fiesta (em outubro de 2009)
Após alguns dias em Lisboa, seguimos para Madrid. É marcante a diferença entre essas duas principais cidades da Península Ibérica. Madrid tem ares de metrópole, movimentada, that never sleeps. Ficamos hospedados no Tryp Memphis, em plena Gran Via, a rua mais famosa e agitada da cidade, novamente com excelente tarifa obtida via booking.com (média de 90 euros a diária). Em toda a sua extensão, nas calçadas largas da Gran Via são encontradas mesas de bares que servem a indissociável dupla cañas e tapas (chopps e petiscos).
Um dos extremos da Gran Via é a Plaza Cibeles, cartão postal da cidade onde fica o Palácio das Comunicaciones. A praça é cruzada pelo Paseo del Prado que leva ao imperdível Museo del Prado, a maior pinacoteca do mundo. Reserve algumas horas para deleitar-se diante de agumas dezenas de obras-primas de artistas como Goya, Velásquez e El Greco. No sentido oposto, seguindo pelo Paseo del Prado, chega-se à Plaza Colón em cujas imediações, especialmente na Calle Serrano, são encontradas lojas de grandes grifes internacionais.
O outro lado da Gran Via dá na Plaza de Espanha, cujas estátuas de Cervantes e de seus personagens Dom Quixote e Sancho Pança formam outro cartão postal da cidade. Dali segue-se em direção ao Palácio Real e à Catedral de Almudena até se chegar na Calle Mayor que nos leva à Plaza Mayor, parada obrigatória para fotos. Vale buscar a saída da Plaza que dá na Calle Imperial, para poder se deleitar com as imagens do cotidiano madrilenho presentes nas inúmeras vielas do entorno da Plaza.
E como diriam os espanhóis, cerca de la Plaza Mayor fica o Mercado de San Mateus, que descobrimos por acaso e acabou revelando-se uma grata surpresa. São várias tendas formando uma verdadeira feira de delícias e petiscos os mais variados, principalmente de frutos do mar, que podem ser deliciosamente consumidos ali mesmo, acompanhados com cerveja ou vinho. Os boquerones (espécie de pequenas sardinhas) fritos e a famosa salada de frutos do mar são simplesmente imperdíveis.
Fizemos outra parada em uma das mesas ao ar livre do charmoso Anciano Rey de los Vinos (www.elancianoreydelosvinos.es). Lá saboreamos mais uma taça de vinho acompanhada de um purito Romeo y Julieta (nos freeshops de Lisboa e Madrid você compra uma caixa com 5 unidades por apenas 4 euros).
No retorno para a Plaza de Espanha, em direção ao hotel, resolvemos cortar caminho pela Plaza Oriente e mais uma surpresa, o La Botilleria Del Café de Oriente (www.botilleria.es), com seu charmoso ambiente no lado de fora, com vista para o Palácio Real. Não resistimos a mais essa parada de começo de noite, temperatura caindo, para beber um tinto Rioja, optar por um jantar leve e deixar o tempo passar. Não foi a primeira vez que deixamos a programação seguir o acaso, abrindo mão de planos anteriormente traçados para nos entregar ao inesperado.
Não há como deixar de aproveitar uma viagem ao exterior e ir às compras nos outlets, hoje presentes em todas as grandes cidades. São shoppings normalmente a céu aberto, afastados dos centros das cidades, onde lojas das mais famosas grifes vendem seus produtos com descontos expressivos. Foi o que fizemos no sábado indo ao Las Rozas Outlet, a cerca de 20 minutos do centro de Madrid, com translado de 20 euros a partir da Plaza de Espanha número 7.
Na última noite optamos por um jantar especial e a escolha recaiu sobre El Espigón (www.elespigon.com). É uma casa de cozinha andaluza, charmosa e confortável, mas que pratica preços razoáveis. Na entrada a especialidade é a fritada de frutos do mar, uma deliciosa combinação de pequenos peixes, camarões e lulas fritos. O cardápio da casa é formado por uma variedade de peixes e crustáceos feitos com simplicidade, mas extraindo seus melhores sabores. Destacamos também os licores caseiros de sabores variados e servidos à vontade.
Somente a TAP tentou ofuscar o brilho dessa inesquecível viagem a dois, e conseguiu, ainda que parcialmente. No embarque em Lisboa, provenientes de Madrid em vôo da mesma companhia que atrasou apenas 30 minutos, fomos impedidos de embarcar de volta para o Brasil e obrigados a permanecer mais 24 horas em Lisboa. A empresa recusou-se a tratar o episódio como negativa de embarque, alegando atraso de conexão para livrar-se da multa de 600 euros.
Depois dessa viagem, chegamos a uma conclusão: Madrid é uma daquelas cidades que merecem ser visitadas, ou melhor, vividas, mais de uma vez. Tantas quantas possíveis.
(*) Co-autoria de @EloisaGaldino
Um dos extremos da Gran Via é a Plaza Cibeles, cartão postal da cidade onde fica o Palácio das Comunicaciones. A praça é cruzada pelo Paseo del Prado que leva ao imperdível Museo del Prado, a maior pinacoteca do mundo. Reserve algumas horas para deleitar-se diante de agumas dezenas de obras-primas de artistas como Goya, Velásquez e El Greco. No sentido oposto, seguindo pelo Paseo del Prado, chega-se à Plaza Colón em cujas imediações, especialmente na Calle Serrano, são encontradas lojas de grandes grifes internacionais.
O outro lado da Gran Via dá na Plaza de Espanha, cujas estátuas de Cervantes e de seus personagens Dom Quixote e Sancho Pança formam outro cartão postal da cidade. Dali segue-se em direção ao Palácio Real e à Catedral de Almudena até se chegar na Calle Mayor que nos leva à Plaza Mayor, parada obrigatória para fotos. Vale buscar a saída da Plaza que dá na Calle Imperial, para poder se deleitar com as imagens do cotidiano madrilenho presentes nas inúmeras vielas do entorno da Plaza.
E como diriam os espanhóis, cerca de la Plaza Mayor fica o Mercado de San Mateus, que descobrimos por acaso e acabou revelando-se uma grata surpresa. São várias tendas formando uma verdadeira feira de delícias e petiscos os mais variados, principalmente de frutos do mar, que podem ser deliciosamente consumidos ali mesmo, acompanhados com cerveja ou vinho. Os boquerones (espécie de pequenas sardinhas) fritos e a famosa salada de frutos do mar são simplesmente imperdíveis.
Fizemos outra parada em uma das mesas ao ar livre do charmoso Anciano Rey de los Vinos (www.elancianoreydelosvinos.es). Lá saboreamos mais uma taça de vinho acompanhada de um purito Romeo y Julieta (nos freeshops de Lisboa e Madrid você compra uma caixa com 5 unidades por apenas 4 euros).
No retorno para a Plaza de Espanha, em direção ao hotel, resolvemos cortar caminho pela Plaza Oriente e mais uma surpresa, o La Botilleria Del Café de Oriente (www.botilleria.es), com seu charmoso ambiente no lado de fora, com vista para o Palácio Real. Não resistimos a mais essa parada de começo de noite, temperatura caindo, para beber um tinto Rioja, optar por um jantar leve e deixar o tempo passar. Não foi a primeira vez que deixamos a programação seguir o acaso, abrindo mão de planos anteriormente traçados para nos entregar ao inesperado.
Não há como deixar de aproveitar uma viagem ao exterior e ir às compras nos outlets, hoje presentes em todas as grandes cidades. São shoppings normalmente a céu aberto, afastados dos centros das cidades, onde lojas das mais famosas grifes vendem seus produtos com descontos expressivos. Foi o que fizemos no sábado indo ao Las Rozas Outlet, a cerca de 20 minutos do centro de Madrid, com translado de 20 euros a partir da Plaza de Espanha número 7.
Na última noite optamos por um jantar especial e a escolha recaiu sobre El Espigón (www.elespigon.com). É uma casa de cozinha andaluza, charmosa e confortável, mas que pratica preços razoáveis. Na entrada a especialidade é a fritada de frutos do mar, uma deliciosa combinação de pequenos peixes, camarões e lulas fritos. O cardápio da casa é formado por uma variedade de peixes e crustáceos feitos com simplicidade, mas extraindo seus melhores sabores. Destacamos também os licores caseiros de sabores variados e servidos à vontade.
Somente a TAP tentou ofuscar o brilho dessa inesquecível viagem a dois, e conseguiu, ainda que parcialmente. No embarque em Lisboa, provenientes de Madrid em vôo da mesma companhia que atrasou apenas 30 minutos, fomos impedidos de embarcar de volta para o Brasil e obrigados a permanecer mais 24 horas em Lisboa. A empresa recusou-se a tratar o episódio como negativa de embarque, alegando atraso de conexão para livrar-se da multa de 600 euros.
Depois dessa viagem, chegamos a uma conclusão: Madrid é uma daquelas cidades que merecem ser visitadas, ou melhor, vividas, mais de uma vez. Tantas quantas possíveis.
(*) Co-autoria de @EloisaGaldino
sábado, 21 de maio de 2011
Computação em nuvem
A área de Tecnologia da Informação (TI) é famosa pela capacidade de criar neologismos e importar estrangeirismos, quase todos vindos do inglês e rapidamente se incorporando às demais línguas sem dar lugar às respectivas palavras e expressões traduzidas. Assim ocorreu com software, termo usado no mundo inteiro e que significa, em português, programa de computador. Um novo conceito domina o setor de TI neste momento mundo afora: o de cloud computing ou simplesmente computação em nuvem, cujo significado e importância vão além dos comuns modismos ou invencionices. Na verdade estamos diante de um novo ponto de inflexão na dinâmica curva evolutiva da TI, que está transformando drasticamente a forma como se compra e usa os seus recursos. É sobre isso, de forma introdutória, que escrevo a seguir.
O modelo de computação em nuvem está associado à utilização dos recursos (memória, capacidade de armazenamento e de processamento) de computadores compartilhados e interligados por meio da Internet, acessados remotamente (daí a alusão à nuvem). Computadores, dados e programas são vendidos como serviços compartilhados que podem ser acessados de qualquer lugar do mundo, a qualquer hora, sem a necessidade de se preocupar com os vários aspectos operacionais envolvidos. O poder computacional e a capacidade de armazenamento tornam-se commodity, comprados quando necessários e escaláveis sob demanda.
Atualmente, a computação em nuvem é dividida em cinco tipos: infraestrutura como serviço (IaaS), quando se utiliza uma parte de um servidor que se adeque às necessidades do contratante; plataforma como serviço (PaaS), quando se contrata apenas uma plataforma (banco de dados, webservice etc); desenvolvimento como serviço (DaaS), quando são oferecidas ferramentas de desenvolvimento compartilhadas; software como serviço (SaaS), quando o software é utilizado via Web (a exemplo do Google Docs, MS Sharepoint Online etc); comunicação como serviço (CaaS), quando se utiliza de uma solução de comunicação unificada oferecida remotamente.
A lista de vantagens da computação em nuvem é enorme, a começar da possibilidade de utilizar softwares sem que estes estejam instalados no computador do usuário e, na maioria das vezes, sem precisar se preocupar com o sistema operacional e o hardware que está usando em seu computador pessoal, acessando seus dados na "nuvem computacional" independentemente disso. O mesmo vale para o ambiente corporativo das organizações.
É no quesito economia, certamente o mais importante, onde residem as maiores vantagens da adoção desse novo modelo computacional, cujos recursos são vendidos de forma compartilhada e pagos sob demanda de uso, portanto, a custos bem menores do que aqueles requeridos para se ter e manter estrutura computacional própria. Essa economia começa com a eliminação das licenças de uso de software, uma vez que a maioria dos provedores de serviços em nuvem fornece aplicações que vão desde a gratuidade até o pagamento por nível de utilização.
No que se refere à infraestrutura (computadores, sistemas operacionais, bancos de dados etc), os custos de manutenção podem cair drasticamente, a depender do que for transferido para a nuvem. Isso inclui toda a gama de serviços de suporte, desenvolvimento, instalação, configuração e manutenção de softwares, além daqueles relacionados a hardware, que passam a ficar a cargo do provedor dos serviços em nuvem, restando nas organizações apenas os computadores clientes (dos usuários finais) configurados em rede e com acesso à Internet.
Há outros aspectos relevantes a justificar a corrida para as nuvens, como a compreensão de que se trata de uma resposta perfeita para a emergente comunicação móvel corporativa, dispensando a dispendiosa infraestrutura para suportar soluções móveis. Outro quesito tido como mais importante do que a economia para algumas empresas, é a agilidade com que suas demandas por escalabilidade (mais capacidade de armazenamento ou de processamento) são atendidas.
Apesar de todas as vantagens citadas, migrar para a nuvem requer uma séria de cuidados, sobretudo quando se trata de aplicação de missão crítica. São muitas as recomendações dadas pelos especialistas, incluindo avaliar a reputação do provedor do serviço, o nível de segurança oferecido, a facilidade (ou não) de trocar de provedor (garantia de portabilidade) e os dispositivos contratuais com níveis de serviço claros e penalidades bem definidas. A principal recomendação é: comece levando para a nuvem uma aplicação de menor porte e baixa criticidade.
É preciso ter em mente que a computação em nuvem ainda está na infância, com regras e políticas incipientes. Exemplo dessa fragilidade foi a recente falha no sistema da Amazon, chamado Elastic Compute Cloud, que afetou diretamente mais de 70 sites, dentre outros do FourSquare, que permite aos usuários a marcação do local em que se encontram, e a do jornal norte-americano The New York Times.
Embora o mercado de computação em nuvem venha evoluindo rapidamente, não faltam críticas sobre a falta de interoperabilidade, receio quanto ao aprisionamento a determinado fornecedor e riscos de segurança. Uma iniciativa para responder à demanda por interoperabilidade é a Open Data Center Alliance, organização cujos membros incluem a BMW, Deutsche Bank, JPMorgan Chase, Lockheed, Marriott, Shell, Terremark, UBS, Baidu, eBay e Kraft Foods. A aliança foi formada no ano passado e o número de membros mais do que dobrou desde então, chegando a 150 empresas, que somam 85 bilhões de dólares de gastos anuais com TI.
Por outro lado, o recente lançamento pela Google do Chromebook, notebook com sistema operacional de código aberto concebido para utilizar computação em nuvem (o usuário acessa os programas que estão disponíveis remotamente, bastando uma conexão à Internet), é mais uma demonstração de que estamos diante de um caminho sem volta.
Empresas como Google, IBM e Microsoft foram as primeiras a iniciar uma grande ofensiva nessa "nuvem de informação" (information cloud), que especialistas consideram uma nova fronteira da era digital. Aos poucos, essa tecnologia vai deixando de ser utilizada apenas em laboratórios para ingressar nas empresas e em computadores domésticos.
quinta-feira, 5 de maio de 2011
Telecomunicações no Brasil: até quando seremos explorados?
Não é de agora que tenho chamado a atenção para os abusos perpetrados pelas empresas de telecomunicações (teles), sobretudo nas operações de telefonia móvel. Para não parecer que critico sem fundamento, ainda mais no twitter, cuja limitação de 140 caracteres dificulta maiores explicações, resolvi escrever esse post, pegando carona em matérias sobre o tema publicadas na Folha de São Paulo de 08/02/2010.
Vamos aos textos extraídos das matérias (em azul), seguidos de meus comentários:
Uma pesquisa recente da consultoria europeia Bernstein Research colocou o minuto de celular no Brasil em segundo lugar entre os mais caros do mundo. O país só perde para a África do Sul e está à frente da Nigéria. O que o levantamento não revelou é que as tarifas são elevadas porque o governo brasileiro não abre mão de impostos e as operadoras não querem baixar o valor extra cobrado por minuto de seus clientes quando estes telefonam para um assinante da concorrente.
Resultado: em média, o consumidor brasileiro paga R$ 0,45 por minuto, segundo a pesquisa, em chamadas locais para celulares da própria operadora. Esse valor passa de R$ 1 caso a chamada termine em um número da operadora móvel concorrente.
Há anos, as teles, por meio de sua associação, a Acel, defendem a redução da carga tributária que, em média, é de 42% do preço por minuto ao consumidor. O setor diz que é uma das cargas mais pesadas do mundo.
Até o momento, o governo -tanto o estadual quanto o federal- não deu nenhuma sinalização de que irá baixar as alíquotas que incidem sobre o serviço. Dados da Telebrasil, associação que reúne representantes do setor de telecomunicações (incluindo as teles fixas e móveis), revelam que, em alguns Estados, a arrecadação com serviços de telecomunicações chega a 40% do total.
Aqui reside um imenso equívoco: se a carga tributária é de 42%, como justificar que a tarifa média praticada no Brasil chega a ser 10x maior que a média mundial e 3x a média dos países em desenvolvimento, segundo outros estudos realizados pelo IPEA e OCDE?
Não é só imposto
Mas não é só isso que pesa para o consumidor. A conta também sobe porque as operadoras móveis não querem perder parte de sua receita de interconexão, valor cobrado por minuto nas ligações que, para serem completadas, precisam passar pela rede de companhias concorrentes.
Em média, esse valor oscila entre R$ 0,40 e R$ 0,45 por minuto e é adicionado ao preço do minuto definido em contrato pela operadora nos planos pré e pós-pagos escolhidos pelo cliente. Entre o quarto trimestre de 2008 e o terceiro trimestre de 2009, TIM, Vivo e Oi angariaram R$ 4,9 bilhões com a interconexão. A Claro não divulga essa informação.
"Grande parte desses recursos [de interconexão] é dinheiro na veia das operadoras", diz Paulo Mattos, diretor de regulamentação da Oi. "Se pegar a receita anual de todas elas [incluindo a própria Oi], 35% é dinheiro da interconexão."
Mattos afirma que esses valores praticados no Brasil são 150% superiores aos da Europa e dos EUA.
A GVT chegou a ir à Justiça contra as operadoras móveis, considerando abusivos os preços cobrados pela interconexão. A disputa foi parar até na SDE (Secretaria de Direito Econômico), órgão do Ministério da Justiça que investiga casos que podem ferir a concorrência comercial.
Anatel diz que consultoria vai estudar modelo
A Anatel informa que já contratou uma consultoria especializada para ajudá-la a definir o modelo de custo dos serviços prestados pelas operadoras móveis. O trabalho deverá ser concluído em 18 meses.
A UIT (União Internacional de Telecomunicações) participa desse projeto. A organização, ligada à ONU, atuou na elaboração desses sistemas de monitoramento de custos das teles em outros países.
Contudo, os valores (de interconexão) em vigor atualmente são considerados exorbitantes. A Folha apurou que a agência pretende acelerar a definição de um modelo de custos para que os consumidores possam utilizar o celular sem se preocupar tanto com o preço do minuto, como acontece em países desenvolvidos.
Segundo a consultoria Bernstein Research, nem mesmo em nações em desenvolvimento o minuto passa de R$ 0,10, já considerando impostos. Na Índia, cujo PIB (Produto Interno Bruto) se assemelha ao do Brasil, o minuto é R$ 0,02; na Indonésia e na China, R$ 0,06; no México, na Rússia e no Egito é R$ 0,10, mesmo preço cobrado nos EUA.
Recentemente, países da América Latina e Caribe começaram a revisão dos custos das operadoras para derrubar o preço do minuto. No Chile, a interconexão caiu pela metade.
Vejam que detalhe interessante: a ANATEL precisava de 18 meses (!!) para definir novo modelo de custos! Será que os estudos foram contratados e iniciados? Quem souber morre ...
As teles afirmam que a interconexão está nesse patamar porque o investimento na telefonia celular é muito maior que na fixa, exigindo novos aportes a cada três anos.
Isso porque haveria uma evolução de tecnologias mais acelerada na plataforma móvel. Um exemplo: nem bem foram realizados os aportes na construção de uma rede de telefonia 3G (terceira geração) no Brasil e as operadoras já discutem os investimentos necessários ao 4G (quarta geração).
Por isso, elas dizem que não dá para abrir mão da receita da interconexão sem colocar algo no lugar. Além disso, ainda segundo as companhias, parte dessa receita ajuda a manter o cliente pré-pago, que gasta, em média, menos de R$ 10 por mês. Essa quantia não remunera o serviço e afeta a lucratividade da companhia. Resultado: com uma redução drástica da interconexão, seria preciso aumentar mais o minuto.
A TelComp, associação que representa as operadoras que defendem a competição, acredita que a redução da interconexão obrigaria as empresas a se tornarem mais eficientes, criando fórmulas e planos que atraiam novos clientes, estimulando justamente o uso do celular na realização de chamadas.
Foi o que aconteceu em países da Europa e nos EUA, que praticamente zeraram o valor da interconexão, fazendo com que o tráfego de voz saltasse rapidamente para um dos mais elevados do mundo.
Esse trecho é autoexplicativo: as teles tentando justificar o injustificável ou perpetuar um modelo de negócios baseado na sua baixa competitividade.
Eis as minhas conclusões:
1. As telecomunicações no Brasil se transformaram em um dos melhores negócios do mundo, combinando a oferta de serviços de péssima qualidade, com tarifas exorbitantes e regulação frouxa (há quem justifique a frouxidão da Anatel por conta do marco regulatório intencionalmente omisso, obra da era privatizante de FHC e que os governos seguintes, assim como o Congresso Nacional, mantêm intocável).
2. O cenário transcende a telefonia móvel e atinge a oferta de serviços de comunicação em banda larga, também abusivamente caros e com velocidades ridículas para os tempos atuais. O cinismo é tanto que, com a chegada do concorrente GVT, a Oi reduziu drasticamente os preços do seu problemático Velox, comprovando os abusivos sobrepreços até então praticados.
3. Nós usuários temos parcela significativa de culpa porque: a) usamos excessivamente o celular; b) não utilizamos outras formas de comunicação de custo baixíssimo, uma vez que rodam na Internet, como Skype, e-mail etc. Mais recentemente, aplicativos de voz sobre IP (VoIP) foram disponibilizados com alta qualidade, a exemplo do Viber para iPhone, mas pouquíssimas pessoas utilizam.
Vamos aos textos extraídos das matérias (em azul), seguidos de meus comentários:
Uma pesquisa recente da consultoria europeia Bernstein Research colocou o minuto de celular no Brasil em segundo lugar entre os mais caros do mundo. O país só perde para a África do Sul e está à frente da Nigéria. O que o levantamento não revelou é que as tarifas são elevadas porque o governo brasileiro não abre mão de impostos e as operadoras não querem baixar o valor extra cobrado por minuto de seus clientes quando estes telefonam para um assinante da concorrente.
Resultado: em média, o consumidor brasileiro paga R$ 0,45 por minuto, segundo a pesquisa, em chamadas locais para celulares da própria operadora. Esse valor passa de R$ 1 caso a chamada termine em um número da operadora móvel concorrente.
Há anos, as teles, por meio de sua associação, a Acel, defendem a redução da carga tributária que, em média, é de 42% do preço por minuto ao consumidor. O setor diz que é uma das cargas mais pesadas do mundo.
Até o momento, o governo -tanto o estadual quanto o federal- não deu nenhuma sinalização de que irá baixar as alíquotas que incidem sobre o serviço. Dados da Telebrasil, associação que reúne representantes do setor de telecomunicações (incluindo as teles fixas e móveis), revelam que, em alguns Estados, a arrecadação com serviços de telecomunicações chega a 40% do total.
Aqui reside um imenso equívoco: se a carga tributária é de 42%, como justificar que a tarifa média praticada no Brasil chega a ser 10x maior que a média mundial e 3x a média dos países em desenvolvimento, segundo outros estudos realizados pelo IPEA e OCDE?
Não é só imposto
Mas não é só isso que pesa para o consumidor. A conta também sobe porque as operadoras móveis não querem perder parte de sua receita de interconexão, valor cobrado por minuto nas ligações que, para serem completadas, precisam passar pela rede de companhias concorrentes.
Em média, esse valor oscila entre R$ 0,40 e R$ 0,45 por minuto e é adicionado ao preço do minuto definido em contrato pela operadora nos planos pré e pós-pagos escolhidos pelo cliente. Entre o quarto trimestre de 2008 e o terceiro trimestre de 2009, TIM, Vivo e Oi angariaram R$ 4,9 bilhões com a interconexão. A Claro não divulga essa informação.
"Grande parte desses recursos [de interconexão] é dinheiro na veia das operadoras", diz Paulo Mattos, diretor de regulamentação da Oi. "Se pegar a receita anual de todas elas [incluindo a própria Oi], 35% é dinheiro da interconexão."
Mattos afirma que esses valores praticados no Brasil são 150% superiores aos da Europa e dos EUA.
A GVT chegou a ir à Justiça contra as operadoras móveis, considerando abusivos os preços cobrados pela interconexão. A disputa foi parar até na SDE (Secretaria de Direito Econômico), órgão do Ministério da Justiça que investiga casos que podem ferir a concorrência comercial.
Anatel diz que consultoria vai estudar modelo
A Anatel informa que já contratou uma consultoria especializada para ajudá-la a definir o modelo de custo dos serviços prestados pelas operadoras móveis. O trabalho deverá ser concluído em 18 meses.
A UIT (União Internacional de Telecomunicações) participa desse projeto. A organização, ligada à ONU, atuou na elaboração desses sistemas de monitoramento de custos das teles em outros países.
Contudo, os valores (de interconexão) em vigor atualmente são considerados exorbitantes. A Folha apurou que a agência pretende acelerar a definição de um modelo de custos para que os consumidores possam utilizar o celular sem se preocupar tanto com o preço do minuto, como acontece em países desenvolvidos.
Segundo a consultoria Bernstein Research, nem mesmo em nações em desenvolvimento o minuto passa de R$ 0,10, já considerando impostos. Na Índia, cujo PIB (Produto Interno Bruto) se assemelha ao do Brasil, o minuto é R$ 0,02; na Indonésia e na China, R$ 0,06; no México, na Rússia e no Egito é R$ 0,10, mesmo preço cobrado nos EUA.
Recentemente, países da América Latina e Caribe começaram a revisão dos custos das operadoras para derrubar o preço do minuto. No Chile, a interconexão caiu pela metade.
Vejam que detalhe interessante: a ANATEL precisava de 18 meses (!!) para definir novo modelo de custos! Será que os estudos foram contratados e iniciados? Quem souber morre ...
As teles afirmam que a interconexão está nesse patamar porque o investimento na telefonia celular é muito maior que na fixa, exigindo novos aportes a cada três anos.
Isso porque haveria uma evolução de tecnologias mais acelerada na plataforma móvel. Um exemplo: nem bem foram realizados os aportes na construção de uma rede de telefonia 3G (terceira geração) no Brasil e as operadoras já discutem os investimentos necessários ao 4G (quarta geração).
Por isso, elas dizem que não dá para abrir mão da receita da interconexão sem colocar algo no lugar. Além disso, ainda segundo as companhias, parte dessa receita ajuda a manter o cliente pré-pago, que gasta, em média, menos de R$ 10 por mês. Essa quantia não remunera o serviço e afeta a lucratividade da companhia. Resultado: com uma redução drástica da interconexão, seria preciso aumentar mais o minuto.
A TelComp, associação que representa as operadoras que defendem a competição, acredita que a redução da interconexão obrigaria as empresas a se tornarem mais eficientes, criando fórmulas e planos que atraiam novos clientes, estimulando justamente o uso do celular na realização de chamadas.
Foi o que aconteceu em países da Europa e nos EUA, que praticamente zeraram o valor da interconexão, fazendo com que o tráfego de voz saltasse rapidamente para um dos mais elevados do mundo.
Esse trecho é autoexplicativo: as teles tentando justificar o injustificável ou perpetuar um modelo de negócios baseado na sua baixa competitividade.
Eis as minhas conclusões:
1. As telecomunicações no Brasil se transformaram em um dos melhores negócios do mundo, combinando a oferta de serviços de péssima qualidade, com tarifas exorbitantes e regulação frouxa (há quem justifique a frouxidão da Anatel por conta do marco regulatório intencionalmente omisso, obra da era privatizante de FHC e que os governos seguintes, assim como o Congresso Nacional, mantêm intocável).
2. O cenário transcende a telefonia móvel e atinge a oferta de serviços de comunicação em banda larga, também abusivamente caros e com velocidades ridículas para os tempos atuais. O cinismo é tanto que, com a chegada do concorrente GVT, a Oi reduziu drasticamente os preços do seu problemático Velox, comprovando os abusivos sobrepreços até então praticados.
3. Nós usuários temos parcela significativa de culpa porque: a) usamos excessivamente o celular; b) não utilizamos outras formas de comunicação de custo baixíssimo, uma vez que rodam na Internet, como Skype, e-mail etc. Mais recentemente, aplicativos de voz sobre IP (VoIP) foram disponibilizados com alta qualidade, a exemplo do Viber para iPhone, mas pouquíssimas pessoas utilizam.
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