sábado, 31 de dezembro de 2011

Meus vinhos prediletos

     Sou daqueles que apreciam o vinho, sem a pretensão de se tornar especialista, pouco menos um insuportável "enochato". Acredito que os melhores vinhos são aqueles que mais agradam o paladar e, nesse caso, cada um tem o seu.
     Como tem sido comum amigos me pedirem sugestões de rótulos, resolvi criar essa despretensiosa lista, que inclui variadas procedências, uvas e preços, por enquanto apenas de tintos. À medida que for lembrando de outros, irei acrescentando. Alguns rótulos são encontrados com diferentes uvas e distintos períodos de envelhecimento (invariavelmente os mais envelhecidos - chamados de reserva e gran reserva - são superiores). Indico com (*) aqueles que oferecem excelente relação custo/benefício.

PAÍS: Espanha
REGIÕES: Rioja, Navarra
RÓTULOS:
- Pata Negra (*)
- Marquês de Arienzo
- Marquês de Riscal
- Cepa 21

PAÍS: Chile
UVAS: Carmenére, Cabernet Sauvignon, Merlot, Syrah
RÓTULOS:
- 35 Sur (*)
- Gran Tarapacá (*)
- Trio
- Palo Alto
- La Célia
- Montes Alpha
- Marquês de Casa Concha

PAÍS: Portugal
REGIÕES: Douro, Alentejo, Ribatejo, Dão
RÓTULOS:
- Monte Velho
- Rapariga da Quinta (*)
- Esporão
- Quinta da Bacalhôa

PAÍS: Argentina
UVAS: Cabernet Sauvignon, Malbec
RÓTULOS:
- Trivento Reserva (*)
- Alta Vista Premium (*)
- Las Perdices
- Septima
- Angélica Zapata

NACIONAIS:
- Miolo Terroir
- Miolo Lote 43
- Salton (Talento e Volpi) (*)
- Casa Valduga Mundvs

DIVERSOS:
- Jacobs Creek (Austrália)
- Robert Mondavi (Califórnia)
- Montes Toscanini (Uruguai)

ONDE COMPRO:
- Fasouto
- www.wine.com.br




terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Uma Constituinte para as reformas

     Quando vi a forma como a imprensa internacional festejou a ascensão do Brasil ao posto de 6a maior economia do planeta, superando o Reino Unido (a exemplo dessa matéria do MailOnLine), não pude conter o misto de alegria e orgulho e, logo em seguida, parar para algumas reflexões que desejo compartilhar com meus (poucos) diletos leitores.
     Em primeiro lugar é preciso reconhecer que o crescimento da economia brasileira vem se dando a partir de contribuições dos últimos governos, a começar da abertura econômica de Collor (ainda que atabalhoada), passando pelas privatizações de FHC (necessárias, porém mal feitas) e culminando com a política econômica diferenciada de Lula, que fez muito mais do que apenas dar continuidade aos fundamentos estabelecidos por FHC, mirando no mercado interno, nas políticas compensatórias, na recuperação do salário mínimo e no consequente crescimento da massa salarial. Tudo isso promoveu a maior mobilidade de classes sociais da nossa história, fazendo vicejar uma nova classe média que se tornou um dos pilares da economia do país.
     Ocorre que ainda há muito a fazer para que possamos continuar crescendo com distribuição de renda e redução das ainda abissais desigualdades sociais. Alguns fatores precisam ser atacados com menos timidez do que estão sendo, com destaque para a infraestrutura produtiva, a educação e as reformas. O passivo da infraestrutura, embora gigantesco, para ser pago só depende de decisão política e adequada alocação de recursos públicos. Noves fora equívocos como sediar a Copa do Mundo e os Jogos Olímpicos (vide Copa e Olimpíada: quem vai pagar a conta?), esse dever de casa, mais cedo ou mais tarde, terá que ser feito, incluindo a indispensável adoção dos modais ferroviário e aquaviário na equivocada matriz de transportes do Brasil.
     São os capítulos da educação e das reformas que mais preocupam, inclusive pela subordinação do primeiro ao segundo. Inobstante os avanços quantitativos do acesso de largas faixas da população à escola pública, qualitativamente os ganhos são quase insignificantes. Dispensável citar as frustrações dos últimos governos, aí incluo FHC e Lula, que não conseguiram mudar esse cenário. E educação é insumo básico para sustentar o crescimento econômico, logo, se continuarmos patinando nessa área, as projeções de crescimento para as próximas décadas precisarão ser refeitas. Ocorre que não basta alocar mais recursos no orçamento sem que seja aplicada profunda transformação no atual modelo (se é que existe algum) de educação pública, desde a gestão (ou ausência de) até o papel do professor (cujo corporativismo atrasado já foi fartamente diagnosticado como uma das razões desse lamentável cenário). Esse nível de mudança, contudo, irá requerer igualmente alterações em marcos legais e aí, finalmente, chegamos nas reformas.
     O Brasil carece, hoje, de várias reformas, sobretudo a política, a tributária e a trabalhista, ou seja, precisa ficar livre de um legado cartorial que produz uma máquina pública perdulária e burocrática; de uma legislação trabalhista senil e absolutamente incompatível com as demandas das economias modernas; de uma carga tributária que, combinada com uma legislação obtusa e uma burocracia fiscalista insana, impede as empresas de crescerem; e de um sistema político que mercantilizou o processo eleitoral e passou a servir de ante-sala para os piores esquemas de corrupção.
     Como se vê, não são reformas simples, portanto, jamais serão concluídas na agenda do Congresso Nacional, com os representantes que lá estão e que são, quase todos, beneficiários desse modelo. Aqui cabe parênteses: com a generosidade peculiar desse período natalino, podemos assegurar que não menos de 50% dos nossos parlamentares - por incompetência, carreirismo, mercancia de votos - estariam mais adequadamente instalados em uma ... deixe pra lá.
     Eis porque não resta alternativa senão a convocação de uma Assembléia Nacional Constituinte exclusiva para as reformas e funcionando simultânea e independentemente do Congresso Nacional. Sendo o prazo de funcionamento de dois anos e vedada a candidatura de detentores de mandatos, teríamos o privilégio de eleger apenas novos nomes. Mais que isso, defendo que os constituintes ficariam inelegíveis por 8 anos, justamente para afastar o mais possível o oportunismo e para evitar conflito de interesse quando forem debatidas regras como reeleição, durações dos mandatos etc.
     Tudo isso não passará de uma quimera, já que longe do interesse da classe política, exceto se uma mobilização popular - e hoje as redes sociais podem ser o instrumento - exigir: Assembléia Nacional Constituinte já!

domingo, 4 de dezembro de 2011

Autoridade e disciplina na escola: o Atheneu de Maria da Glória

     Após concluir as 4 primeiras séries do ensino fundamental no Grupo Escolar Edézio Vieira de Melo, em Capela, desembarquei no Colégio Estadual Atheneu Sergipense em 1973 para cursar a 5a série. Além do natural impacto da transição do curso primário para o ginasial, ainda mais em uma cidade algumas vezes maior do que a terra natal, deparei-me com um colégio que mais parecia escombro de uma guerra: sujo, banheiros quebrados, salas com carteiras danificadas, paredes (e até o teto) completamente riscados.
     Dois anos depois, o Atheneu Sergipense foi fechado para reforma. Alguns alunos foram transferidos para o Colégio Tobias Barreto e outros, como eu, para o recém inaugurado Colégio 8 de Julho, onde hoje está instalada a Secretaria de Estado do Planejamento e Gestão. Em 1977 o Atheneu foi reaberto, totalmente reformado, agora apenas com as três séries do ensino médio, mas sob nova direção, à frente a professora Maria da Glória Monteiro.
     Primeiro dia de aula, alunos reunidos no auditório (hoje Teatro Atheneu), Maria da Glória deu seu recado, curto e grosso: a palavra de ordem seria, dali em diante, disciplina. Quem ousasse descumprir o regimento interno, receberia a devida punição.
     Diariamente, com seu ar austero e de poucos amigos, a diretora percorria o colégio, entrava nas salas e, quando encontrava um risco na parede ou alguma carteira danificada, indagava sobre quem causou o dano. Se não aparecesse, a classe inteira era suspensa. Aluno fora da sala durante o horário de aula? Nenhum.
     Mas o rigor disciplinar não atingiu apenas os alunos. Primeiro dia de aula, todos os professores em sala, interrompendo a tradição de irem aparecendo aos poucos, alguns um mês após o início do ano letivo. É bem verdade que algumas medidas eram desnecessárias, como a obrigatoriedade dos professores usarem gravata e alguns alunos, acho que da 3a Série, usarem a farda de gala com seu quente casaco de caqui.
     O fato é que a rigorosa disciplina não nos fez mal algum, ao contrário, continuávamos os mesmos, com as mesmas alegrias e brincadeiras. A diferença foi que, aos poucos, começamos a nutrir um profundo orgulho por envergar aquela farda e dizer que estudávamos em um colégio organizado, com professores que cumpriam sua obrigação de ensinar, com laboratórios de ciências funcionando e a biblioteca se transformando em local que atraía cada vez mais alunos. Ao orgulho era adicionada emoção no desfile cívico de 7 de Setembro, com a nova e imponente banda marcial a nos conduzir vaidosos com a farda de gala.
     Um episódio que vivenciei traduz um pouco daquele momento. 1978 foi ano eleitoral e resolvemos, eu e um colega, lançar a candidatura do ex-governador Seixas Dórea a senador, com o número de Avogadro (6,02 x 10 à 23a potência). Produzimos santinhos e distribuímos com os colegas, até que fomos chamados à diretoria. Em sua sala, Maria da Glória nos deu sua peculiar repreensão e, como punição, teríamos que copiar 3 vezes o extenso Hino Nacional. Ousado, comentei que seria uma boa oportunidade de aprender o hino, já que eu não o sabia de cor. Surpresa, a diretora indagou: "O senhor (era assim que nos tratava) não conhece o Hino Nacional? Então copiará 10 vezes". E assim decorei o hino.
     Na tradicional festa anual de reencontro dos ex-alunos do Atheneu deste 2011, lá estava, pela primeira vez, professora Maria da Glória. Fui até ela, agradeci pelo que me ensinou e ainda lhe pedi permissão para tirar esta foto.


segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Turismo em Sergipe: reflexões e contribuições

    Comecei a me interessar pela economia sergipana a partir da criação do Fórum Empresarial de Sergipe, da qual participei no final dos anos 90, cuja agenda sempre priorizou a temática do desenvolvimento econômico do Estado. Logo nos primeiros anos, os membros do Fórum produziram documentos com propostas setoriais que foram encaminhados ao governo, um deles versando sobre o turismo.
     Daí em diante passei a conversar com empresários, ler estudos e examinar pesquisas, sempre com especial interesse porque reconhecia a importância desse setor como um dos agentes dinamizadores da nossa economia. E aqui abro parêntese para evidenciar um problema que afeta o desenvolvimento do nosso turismo e que acredito não ser fácil resolver: a reduzida autoestima do sergipano que considera nossas praias menos atrativas que as demais do Nordeste. Mas esse é tema para outro post. Fecho parêntese.
     Com o advento do governo Marcelo Déda assumi a titularidade da Sedetec e, nos primeiros dois anos, a atuação com a Setur (à frente João Gama) foi muito próxima, de verdadeira parceria. Em 2009, com a extinção daquela pasta, a função turismo foi incorporada à Sedetec e, por quase dois anos, coordenei essa política pública, fazendo algumas apostas sobre as quais comentarei a seguir.
     A primeira das apostas, aliás seguindo o que já vinha adotando na Sedetec, foi garantir que a política do turismo também fosse formulada de forma participativa. Para isso, propus ao governador (e ele acatou) alterações no decreto que dispõe sobre o Fórum Estadual do Turismo, a partir de discussões com representantes do trade turístico, dando mais efetividade ao seu papel de protagonista da formulação e do acompanhamento da política estadual do setor. Tornei regulares as reuniões do Fórum e submeti aos seus membros (representantes do próprio governo, da sociedade e do trade turístico) a validação do Plano Estadual de Turismo (elaborado de forma participativa), da matriz de investimentos do Prodetur Nacional/Sergipe e dos respectivos PDITS (Plano de Desenvolvimento Integrado do Turismo Sustentável) dos pólos Velho Chico e Costa dos Coqueirais.
     A segunda aposta foi no Prodetur Nacional/Sergipe, cuja carta consulta foi elaborada e aprovada quando João Gama esteve à frente da Setur e tem investimentos previstos de US$ 100 milhões. Reformulei a Unidade Coordenadora do Projeto e acelerei as tratativas junto ao MTur e ao BID, sempre com o permanente apoio de José Roberto de Lima Andrade, à época presidente da Emsetur. Ajustamos a matriz de investimentos para guardar coerência com os PDITS (creio que pela primeira vez na história do governo estadual um projeto dessa magnitude teve seus investimentos definidos exclusivamente a partir de critérios técnicos), introduzimos demandas da área da cultura e conseguimos conveniar com o MTur quase R$ 30 milhões a título de antecipação de contrapartida não-reembolsável. Nesse montante estão os recursos aplicados nas rodovias Santa Luzia/Crasto e Convento/Pontal, além de cerca de R$ 6 milhões para ações de promoção do destino turístico Sergipe.
     A terceira aposta foi no turismo de eventos, desde sempre, e inexplicavelmente, tratado sem muita ênfase tanto pelo governo, quanto pelo próprio trade turístico. Logo no começo do governo, em 2007, a Sedetec e a Setur ampliaram o apoio ao Aracaju Convention & Visitors Bureau, mas o maior desafio continua sendo superar as limitações do Centro de Convenções de Sergipe. Adepto da filosofia popular de que o ótimo é o inimigo do bom, e ciente das dificuldades de captar no mínimo R$ 50 milhões para construir um novo, discuti com representantes do trade turístico e conclui que a ampliação e reforma do CCS era viável e de baixo custo (cerca de R$ 10 milhões). Fomos adiante e a Codise (titular do equipamento) elaborou o anteprojeto e ainda captamos no MTur os recursos para a elaboração dos projetos de engenharia. Quero crer que essa estratégia esteja mantida, sem prejuízo de um projeto maior de um novo centro de convenções, até porque não há qualquer restrição a termos dois, complementares, um médio e um grande.
     Apesar de ter sido apenas um ano e sete meses, com discrição e dedicação deixamos nossa modesta contribuição, que teve como uma marca importante a composição de uma equipe técnica nomeada com base nos melhores princípios da meritocracia. Pessoalmente foi grande o aprendizado, sobre o qual quero compartilhar algumas conclusões com o viés da boa e necessária crítica construtiva (e que assim seja recebida). Primeiramente, conclui que o nosso trade turístico é por demais heterogêneo e suas lideranças pouco propositivas, não valorizando e nem tirando proveito de espaços institucionais nobres, como o Fórum Estadual de Turismo, preferindo exercer sua influência a partir de relações pessoais com os dirigentes governamentais de plantão.
     Outra conclusão a que cheguei é que nossos especialistas e empresários optam por fazer mais do mesmo, ao invés de exercitar a criatividade em busca de novos modelos de atração de turistas e de fomento ao setor. Fazer mais do mesmo, por exemplo, é só enxergar o turismo de lazer e valorizar instrumentos como a mídia compartilhada que, na prática, significa tornar-se refém da lógica perversa de certa operadora de viagens, cujo hegemonismo impõe as regras de um jogo em que invariavelmente ela ganha.
     Por fim, mas não menos importante, estou absolutamente certo de que o turismo em Sergipe vem se consolidando (é bem verdade que mais lentamente do que desejamos) a partir de inegáveis esforços dos últimos governos e do próprio trade turístico, e que as críticas aos seus trabalhos devem ser feitas com responsabilidade e respeito, mas também precisam ser recebidas com humildade e como inestimáveis contribuições.

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Reflexões tecnológicas pela passagem de Steve Jobs


A perda neste 05/10/2011 de Steve Jobs, co-fundador da Apple (empresa de maior valor de mercado do mundo atualmente) e precisamente definido como visionário, produziu as mais diversas análises e considerações sobre a indústria da tecnologia da informação (TI) e me estimularam a fazer minhas próprias reflexões (talvez provocações).
Primeira delas: apesar de estranhamente não ter visto em lugar algum, tenho certeza de que a maior fonte de inspiração de Jobs foi Akio Morita, o discreto executivo da japonesa Sony que tornou a empresa líder do segmento nos anos 80/90, partindo da estratégia de "criar" necessidades. Em seu livro, Made in Japan, ele conta como destronou a holandesa Philips com gadgets como o discman.
Mas Jobs foi além de Akio. Ele "criou" necessidades (nunca teria valorizado nem encomendado pesquisas de mercado para identificar gostos, necessidades e tendências) e, ao mesmo tempo, apostou suas fichas em design e usabilidade (as interfaces tinham que ser sempre intuitivas), sem abrir mão de tornar seus produtos fashion, símbolo de status, objeto de desejo de legiões de consumidores. Sem ter que inventar, ele deu roupagem especial e singular a produtos que já existiam, desde o mouse até o leitor de MP3, sem esquecer do tablet. Aliás, o conceito de tablet não é novo: no final dos anos 80 vi um especialista da IBM na Fenasoft, Rio de Janeiro, apontando como tendência para a próxima década dispositivos do tipo prancheta. Desde então, várias tentativas de produzir tablets foram rejeitadas pelo mercado, até que Jobs enxergou ali a oportunidade de criar uma nova necessidade: a de sofisticar o simplório Kindle da Amazon, que houvera antecipado-se à Apple.
Se introduzirmos nessa receita um último, mas não menos importante ingrediente, o carisma pessoal de Jobs, o resultado não seria outro: a liderança de mercado em um segmento altamente competitivo, que tem feito a concorrência comer poeira. Não se pode desconsiderar, contudo, os dois pilares do modelo de negócios da Apple: a verticalização (a empresa produz tudo, hardware e software, mesmo via terceiros) e a propriedade (tudo é caixa-preta). Digo isso para fazer o contraponto com as tecnologias livres (abertas, não-proprietárias),  nas quais tem apostado um outro gigante, a Google. Mas essa é outra conversa, assunto para próximas reflexões.
Outra coisa: as comparações que estão sendo feitas entre Jobs e Bill Gates (fundador e chairman da Microsoft), são impróprias. Bill construiu diferente trajetória empresarial, igualmente hegemonista e também baseada em padrões fechados, mas apostando com significativo êxito no mercado corporativo (software e serviços para ambientes computacionais de médio e grande portes). O largo espectro dos produtos da Microsoft variam de jogos eletrônicos até gerenciadores de bancos de dados, razão pela qual a gigante disputa, ombro a ombro, o segundo lugar com a não menos importante IBM.
Carisma, talento, irreverência e visão de futuro à parte, acredito que Steve Jobs foi, antes de tudo, um genial businessman. Deixa sua marca e entra, pela porta da frente, na galeria daqueles que contribuíram para o progresso da humanidade.


segunda-feira, 26 de setembro de 2011

O apagão de mão-de-obra especializada


     O crescimento da economia mundial trouxe uma consequência que atinge atualmente muitos países, inclusive o Brasil: a carência de mão-de-obra especializada, sobretudo nas atividades técnicas e tecnológicas, aí incluídas as engenharias, a computação e suas respectivas carreiras técnicas de nível médio.
     Na área de Tecnologia da Informação (TI), embora o setor empregue atualmente 600 mil profissionais no país, apresenta déficit de cerca de 90 mil especialistas, de acordo com projeções do Observatório Softex. Mantida essa tendência, o déficit poderá chegar a 200 mil em 2013. Adicionalmente, de acordo com a Brasscom (associação que reúne empresas de TI de perfil exportador), apenas 85 mil estudantes concluem, em média, os cursos superiores de TI, de um total de 460 mil vagas oferecidas anualmente pelas instituições de ensino.
     Com as engenharias o cenário é igualmente desalentador: são 197 mil vagas oferecidas e somente 120 mil preenchidas nos vestibulares. Já o número anual de graduados (dados de 2010) são, comparativamente, assustadores: 



Engenheiros formados/ano     
PaísFormados    
China400 mil
Índia250 mil
Rússia100 mil
Coréia do Sul80 mil
Brasil32 mil











     Mas a que se deve tamanho desinteresse e o que justificaria uma evasão que chega a ultrapassar 80%? As causas são diversas, mas destaco duas: a ilusão que está por trás da busca pelas carreiras de Estado e a falta de base matemática na escola regular, reflexo do investimento anual em educação por estudante, que é aproximadamente quatro a cinco vezes menor do que a média dos países da OCDE para a educação básica e 20% maior na  educação superior.
     Sobre a ilusão das carreiras de Estado, temos aí uma perversidade: motivados pela estabilidade do emprego e pelos salários absurdamente elevados, os jovens são pressionados pelas suas famílias a buscarem cursos que favoreçam a participação em concursos públicos (sobretudo Direito, com 1.240 cursos no Brasil e 1.100 no resto do mundo, conforme pode ser visto em http://migre.me/5MAvT). Resultado: 1 em cada 1.000 vai concretizar esse sonho, enquanto os 999 restantes vão engrossar a massa de subempregados frustrados. E onde está a perversidade? Exatamente no desperdício de tantos jovens talentosos, essenciais nas engenharias e com grande potencial para o empreendedorismo, que são vistos ocupando as monótonas carreiras de Estado.
     A realidade do ensino médio profissionalizante é ainda pior: a falta de investimentos públicos nas últimas décadas levou o Brasil a uma situação negativamente singular. Enquanto nos países ditos desenvolvidos tem-se 1 profissional de nível superior para cada 5 de nível médio, em nosso país são 2 de nível superior para cada 1 de nível médio. Felizmente os governos Lula e Dilma vêm buscando corrigir esta distorção com a construção de 214 novas escolas técnicas federais que já começam a se somar às 140 unidades construídas entre 1909 e 2002.
     Esse cenário se agrava a cada ano e contribui para elevar as (já não poucas) dificuldades para cumprir os cronogramas dos dois megaeventos esportivos (Copa 2014 e Jogos Olímpicos 2016).


Leituras complementares:
A inversão de valores e a importância da engenharia - Milton Golombeck - http://migre.me/5PtpJ


domingo, 25 de setembro de 2011

Um pouco dos encantos do Chile


O Chile é um país admirável e em vários aspectos se diferencia, para melhor, dos demais da América do Sul. Dentro do contexto da América Latina, é o melhor em termos de desenvolvimento humano, competitividade, qualidade de vida, estabilidade política, globalização, liberdade econômica, baixa percepção de corrupção e índices comparativamente baixos de pobreza. Também é elevado o nível regional de liberdade de imprensa e de desenvolvimento democrático. Sua posição como país mais rico da região (empatado com o México), em termos de produto interno bruto per capita (a preço de mercado e paridade do poder de compra), no entanto, é contrariada devido ao seu alto nível de desigualdade de renda, medido pelo coeficiente de Gini. Em maio de 2010 o Chile se tornou o primeiro país sul-americano a aderir ao restrito clube da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico).
Sua bela capital, Santiago, com população superior a 6 milhões de habitantes, é uma das cidades mais modernas da América do Sul. Entre seus atrativos estão inúmeros parques, museus, igrejas e uma intensa vida noturna. Via www.booking.com nos hospedamos no excelente Radisson Plaza Santiago Hotel, com diária de pouco mais de US$ 120, localizado num moderno distrito de negócios em Las Condes.
Chegamos no começo da tarde de uma quinta-feira e decidimos almoçar nas redondezas do hotel, na Churrasqueria Bariloche, casa de carnes com mesas na calçada e chopp gelado, que serviu um delicioso bife de chorizo. Depois de um necessário descanso no hotel, fomos jantar no Borde Rio (www.borderio.cl), centro gastronômico formado por 11 restaurantes das mais diversas especialidades. Escolhemos o estiloso Delmónico, de cozinha americana contemporânea, com decoração inspirada em New Orleans, onde saboreamos uma deliciosa pasta acompanhada do nacional Montes Alpha Shiraz. Foi aí que conhecemos o pisco sour, um drinque preparado à base de pisco (aguardente peruana feita de uva) e suco de limão com outros ingredientes. A máxima “aprecie com moderação” nos pareceu extremamente adequado para a bebida.
Centro de Santiago: o velho e o novo
A poucos metros do hotel existe uma estação do metrô, que utilizamos no segundo dia, dedicado a caminhadas pela cidade. Descemos nas imediações de Cerro San Cristobal, parte do enorme Parque Nacional, que possui Jardim Zoológico e Jardim Botânico. Para chegar ao topo da montanha toma-se o funicular (veículo que sobe a montanha preso em cabos sobre um plano inclinado)  e chega-se à estátua da Virgem Imaculada Conceição, de 22m. A visão de 360° da cidade é belíssima, local ideal para muitas fotos.
Nas proximidades da entrada do parque está um dos endereços mais procurados pelos turistas que visitam a cidade: La Chascona, a casa onde morou Pablo Neruda, ganhador do Prêmio Nobel e mais famoso poeta chileno. Fizemos o tour guiado pela charmosa casa, hoje um museu, para conhecer melhor esse adorável poeta, símbolo da esquerda latinoamericana, e perceber seu fascínio pelo mar que inspirou a arquitetura dos ambientes, como se fossem espaços internos de um barco. Visitar La Chascona permite também entrar no universo da relação de Neruda com Matilde, sua terceira mulher, para quem o poeta construiu a casa. Além disso, tem um gostinho especial as referências a Oscar Niemeyer, Vinícius de Moraes e Jorge Amado, amigos brasileiros de Pablo Neruda.
Um dos espaços de La Chascona, casa de Neruda em Santiago
A pé, seguimos pela Calle Constitución, em Bellavista, bairro conhecido como boêmio e cultural  e famoso pelos muitos bares e restaurantes. Paramos na Sangucheria Ciudad Viega (www.ciudadvieja.cl), que oferece dezenas de marcas de cervejas, onde provamos algumas das fabricadas no país. De lá caminhamos até o Mercado Central (o tempo esquentou e teria sido melhor ter tomado o metrô), famoso pelos vários restaurantes que oferecem frutos do mar. O inconveniente é o assédio de garçons desde as imediações do Mercado, prática sempre desagradável e irritante. Comemos o peixe mais famoso da região, o congrio, feito sem muito capricho.
Em seguida caminhamos pelo centro da cidade, com paradas na catedral e no Palácio de La Moneda, sede do governo. À noite optamos por uma área famosa por badalados bares, a Orrego Luco de onde seguimos para jantar no California Cantina & Restaurante (www.californiacantina.net), que fica nas imediações da Calle Providencia. O vinho escolhido foi o Santa Ema reserva, que nos surpreendeu e voltamos a tomar em outras ocasiões, inclusive no Brasil.
Para o restante do roteiro - visita a vinícola, a Viña del Mar e Valparaiso - optamos por alugar um carro, mas não foi fácil encontrar assim, de última hora. Depois de várias tentativas, finalmente a Alamos tinha um sedan compacto com GPS a preço razoável. Fomos, então, visitar a vinícola Concha y Toro (www.conchaytoro.com), que fica nos arredores da cidade. Depois de alguns transtornos com o GPS, finalmente chegamos à vinícola e fizemos o tour Marquês de Casa Concha, que inclui degustação de 4 tipos desse que é um dos melhores vinhos da casa.
No fim da tarde fomos ao Parque Arauco, belo shopping center com uma praça aberta, em torno da qual existem vários restaurantes. Escolhemos a varanda de um deles para aproveitar e apreciar a lua cheia, enquanto artistas locais tocavam bons hits no palco instalado no centro da agitada praça.
O domingo, penúltimo dia da viagem, foi dedicado a Valparaiso e Viña del Mar, viagem agradável de 120 Km. Valparaíso faz por merecer o título de patrimônio da humanidade. Para fugir dos ataques piratas, comuns no século 16, os moradores construíram as casas em morros, de onde se avista o mar como se fossem cartões postais. A cidade também tem uma outra casa de Pablo Neruda, visita obrigatória. Em 1959, o poeta chileno procurava por um lugar onde viver e escrever com tranquilidade. Neruda encontrou La Sebastiana, batizada assim em homenagem a seu construtor, Sebastian Collado. São cinco pavimentos, pequenos, mas sempre originais, igualmente inspirados em um barco, em cujos diversos ambientes estão dispostos móveis e objetos que o poeta e diplomata trazia das mais diversas partes do mundo.
Valparaiso, vista de La Sebastiana
A poucos quilômetros de Valparaiso, está Viña del Mar, balneário mais sofisticado, cheio de prédios a beira mar, lojas, bares e restaurantes. Depois de cumprir o ritual de molhar os pés nas águas do Pacífico - ainda mais geladas porque o dia estava frio -, paramos num restaurante mexicano e fomos para o elegante Chez Gerald (www.chezgerald.com), com vista maravilhosa para a praia.

Foram quatro dias desbravando um pouquinho da diversidade chilena, marcante tanto do ponto de vista climático, quanto humano. Impressiona perceber como os chilenos conseguiram vencer as adversidades geográficas, o relevo acidentado, a instabilidade sísmica e o clima, tornando-se um país que é referência para os vizinhos da América Latina. E para aqueles que querem experimentar a neve, nas proximidades de Santiago está a famosa estação de ski do Valle Nevado, excelente opção para uma viagem de inverno. Enfim, um destino que vale muito conhecer.

Jorge Santana & Eloisa Galdino, em março de 2011